20110715

* NUM BAILE COM TRASÍBULO

 
 *

Welington Almeida Pinto


         A certa altura do Baile, entendemos, eu e meu companheiro de mesa, de convidar duas jovens senhoras para dançar; estavam elas sentadas numa das mesas lá no fundo do salão. Foi mal. Nem bem iniciamos a corte, fomos recusados por elas num coro único:
- Não dançamos.
Meu amigo, surpreso com a recusa, toma outra direção sem dizer mais nada. De pé, ao lado delas, pensei que deveria conversar um pouco mais com as damas. Insisti:
- Não gostam de dançar?
A que estava do meu lado, de cabelo mais curto, respondeu:
- Gosto, mas hoje não estou a fim.
- Pena.
- Viemos aqui para conversar e curtir a movimentação da festa.
- Gostam de ver as pessoas dançando? – perguntei.
- Isso mesmo – responde uma. - O salão de festa deste clube me passa uma energia muito legal. Aqui brinquei muitos carnavais..., aqui comecei a tomar hi-fi. Cuba libre também. Háháhá... aqui ia fumar escondido no banheiro e, por aí, vai.
A outra de cabelos mais curtos.
- Recordo do meu Baile de 15 anos. Dos  bailes de formatura, debutantes, das missas dançantes aos domingos e tantos outros eventos que jamais vou esquecer. Bons tempos!... Sabia todas as músicas de cor, mesmo as do novíssimo disco dos Beatles ou da Jovem Guarda.
- Pelo que vejo, têm muitas histórias vividas neste clube.
- E como!... – responde uma delas.
- Posso sentar um pouquinho só?
- Esteja à vontade.
Puxo a cadeira da mesa ao lado que estava vazia e me acomodo no meio das duas, dizendo:
- Sabem de uma coisa: vocês acabam de despertar em minha mente um fato parecido com esse momento que estamos vivendo, ocorrido há mais de um século.
- Não entendi – fecha o sorriso uma delas.
- Explico. Aconteceu com o poeta Trasíbulo Ferraz. Conhecem o baiano Trasíbulo?
A outra pensa um pouquinho:
- Não. Nunca ouvi falar.
- Nem eu – adianta a de cabelos mais curtos.
- Certo dia o jovem Trasíbulo chamou uma moça, elegante e bonita como vocês, para dançar e foi rejeitado por ela.
- Ela devia estar com os pés doendo – ironiza a moça de cabelos longos.
- Acho que não. O motivo era outro – apressei.
- Qual?
- Desejam saber?
- Sim. Sim.
Tenho que contar como tudo aconteceu, posso?
- Claro. Estou curiosa – confessa a de cabelo mais curto.
- Sabem que naquele tempo era comum encerrar uma festa com alguém declamando um poema, acompanhado por uma boa música tocada ao piano?
- Que romântico!... Conta.
- Pois bem, no baile de formatura de um amigo, realizado num palacete do largo de São Pedro, em Salvador, o poeta e jornalista Trasíbulo, sem condições de comprar um traje de gala para a festa, compareceu com sua velha casaca de veludo-pinhão, sobre um colete florido. Foi recebido pelos colegas com alegria, mas rejeitado para uma contradança por uma das donzelas, ricamente, vestidas no salão. A moça alegou indisposição para bailar, mas logo aceitou o convite de outro mancebo, vestido a rigor.
Aborrecido com a ‘taboca’, nome dado à recusa, resolveu aceitar o pedido para declamar uma poesia no final da festa.
Chegada a hora, Trasíbulo surpreendeu-se ao ver que a jovem que ia acompanhá-lo ao piano era a mesma que lhe negara a contradança. Não se abateu. Com a pose de um declamador experimentado, o polegar enfiado na cava do colete e a mão direita apertando o cabo da bengala, o poeta começou explicando que não ia declamar poesias conhecidas, mas improvisar uma ‘ode’ dedicada à ocasião, a que deu o título de ‘A Orgulhosa’. E assim fez.
Ao fim da apresentação, tocada por uma forte emoção, a donzela não resistiu e tombou desfalecida sobre o teclado do instrumento musical, sendo socorrida pelo próprio poeta, enquanto era aplaudido por uma platéia entusiasmada.
- Nossa, que legal!... Enredo digno de um romance - adianta a moça de cabelos longos.
- Sabe de cor o poema? – pergunta a outra.
- Sim.
 - Pode dizer um pedacinho?
- Não. O barulho aqui dentro, com a banda tocando, está muito alto. Escrevo uma estrofe neste guardanapo, certo?
- Claro – responderam numa só voz.
Assim fiz. Peguei o pedaço de papel e versei um trecho da poesia:

“Deixa-te disso, criança,
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha”.

Dobrei a folha, anotei no verso o nome do site, na internet, onde poderiam ler o poema inteiro e entreguei à jovem senhora de cabelos mais curtos. Ela sorriu agradecida e, antes de sair, estendeu-me o rosto e trocamos beijos nas faces. Em seguida, despedi da outra com um suave aperto de mãos.
Satisfeito, voltei para a minha mesa feliz com a resposta tão rápida de minha memória. Viva!...

* Para ver o poema completo, acesse: www.versoslivres.blogspot.com
* Esse poema, apesar de muita gente pensar que é de Castro Alves (1847-1871), é do poeta e jornalista baiano Trasíbulo Ferraz Moreira, nascido em Lenções, na Chapada Diamantina, em 28 de janeiro do 1870. Ele freqüentou as faculdades de Direito do Recife e da Bahia, até o quarto ano. Antes de concluir o curso, morreu por moléstia pulmonar. Foi redator-chefe da “Gazeta de Notícias” de Salvador, onde também publicou poesia, contos e crônicas. Autor do livro de contos “Poliformes”, publicado em 1896.
• FBN© 2006 * NUM BAILE - Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto – novembro/2006.