20120504

* CAMINHOS DA LITERATURA EM BELO HORIZONTE.

*
É aqui que eu quero ficar



 
Igreja da Pampulha

                                                      
               A cidade, desde o nascimento, valoriza a cultura
            como instrumento de promoção literária.


                                * Sergius Gonzaga


No Brasil, até o início dos anos de 1960, a leitura de textos literários era considerada uma obrigação natural por parte de professores e de alunos, não havendo quem questionasse o sentido do ato de ler. Há que se entender que, em nosso país,, o livro exercia desde o século XIX inúmeras funções, particularmente para os grupos sociais privilegiados:
A) era a mais perfeita forma de lazer;
B) era uma insubstituível fonte de conhecimento humano;
C) era o próprio espelho da nação, no qual a pequena elite letrada se reconhecia;
D) era o modelo supremo de correção e elegância do idioma pátrio.
A década de 60 trouxe uma importante universalização e democratização do ensino, permitindo que outras classes – que não apenas as privilegiadas – tivessem acesso ao saber. Estes novos atores sociais, no entanto, provinham de um mundo sem livros e com referências culturais muito pobres. E antes que a tradição de leitura se incorporasse às suas existências, foram atraídos pela poderosa indústria cultural que se implementava na mesma época.
 Esta indústria, centrada na tevê e no disco, conquistou, de imediato, consideráveis parcelas da população recém-alfabetizada. As necessidades de lazer, entretenimento e informação – que todo indivíduo escolarizado possui – foram preenchidas por estes meios audiovisuais. E a leitura perdeu a guerra pela audiência, convertendo-se numa espécie de atividade refinada de alguns poucos nostálgicos.
Até mesmo as elites, abandonaram parcialmente o seu antigo amor – que lhes oferecia uma constelação de imagens e de visões de mundo -, trocando-o por uma sub-arte digestiva e fácil, produzida pelos meios de comunicação de massa. Contudo, esta situação não deve ser considerada como a emergência do apocalipse. Primeiro, porque nunca foram produzidos tantos livros como atualmente. Segundo, porque nunca se exigiu tanta qualificação intelectual dos jovens para vencer no mercado de trabalho. Terceiro, porque os professores – passado um período de desencanto e ceticismo – perceberam que podiam reinventar a leitura com seus alunos, desde que agindo com criatividade e persuasão.
Livros a granel e relativamente acessíveis; alunos que precisam se preparar do ponto de vista lingüístico e cognitivo para uma sociedade globalizada, onde apenas os altamente capazes do ponto de vista cultural irão triunfar; e professores preparados para provocar e seduzir seus discípulos com leituras vibrantes, prazerosas e vitais; eis os três elementos que sustentam o contínuo renascimento do gosto pela leitura nas escolas brasileiras.
José Hildebrando Dacanal assinala a importância da literatura em nossos dias: É indiscutível que, mesmo na era das imagens e dos meios de comunicação de massa, a literatura preservará, como toda a arte, sua função de símbolo e documento do passado e desempenhará – enquanto a humanidade for a mesma – o papel pedagógico que sempre a caracterizou. Não apenas no sentido restrito da sala de aula, mas principalmente no sentido amplo e universal de instrumento de aquisição de conhecimento e diferenciação da elite em relação à massa, mantendo-se, pois, como relicário* da língua e como um espelho monumental da nação.

 RELICÁRIO: OBJETO ONDE SE GUARDAM RELÍQUIAS

Em depoimento magnífico, o peruano Mario Vargas Llosa insiste no valor da literatura em comparação com outras atividades:
Em nossa época se escrevem e publicam muitos livros, mas já ninguém acredita que a literatura sirva para alguma coisa, a não ser para evitar que as pessoas se aborreçam muito nos ônibus ou no metrô, e para que, adaptada para o cinema e a televisão – se for sobre marcianos, horror, vampirismo ou crimes sadomasoquistas -, se torne televisiva ou cinematográfica. Para sobreviver, a literatura tornou-se light. É um erro traduzir essa noção por “leve” porque, na verdade, ela significa” irresponsável” e, muitas vezes, “idiota”. Se o objetivo é apenas o de entreter e fazer com que os seres humanos passem momentos agradáveis, perdidos na irrealidade, emancipados do inferno doméstico ou da angústia econômica, em descontraída indolência intelectual, as ficções da literatura não podem competir com as oferecidas pelas telas de cinema ou tevê.
 As ilusões forjadas com a palavra exigem a participação ativa do leitor, um esforço de imaginação e, às vezes – quando se trata da literatura moderna -, complicadas operações de memória, associação e recriação, algo de que as imagens do cinema e da tevê dispensam os espectadores. E, por isso, os espectadores se tornam cada vez mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que requeira esforço intelectual.
Digo isso sem a menor intenção beligerante contra os meios audiovisuais, e a partir da minha condição de apreciador de cinema – vejo dois ou três filmes por semana – e que também gosta de um bom programa de tevê (essa raridade). Mas, justamente por isso, afirmo que nenhum dos filmes que vi me ajudou a compreender o labirinto da psicologia humana como os romances de Dostoievski. Ou os mecanismos da vida social, como os livros de Tolstói e de Balzac, ou os abismos e os pontos altos que podem coexistir no ser humano, como me ensinaram as obras de um Thomas Mann, um Faulkner, um Kafka, um Joyce ou um Proust.
                  As ficções apresentadas nas telas são intensas por seu imediatismo e efêmeras por seus resultados. Prendem-nos e nos liberam quase de imediato. Das ficções literárias, nos tornamos prisioneiros da vida toda, porque o resultado de uma boa literatura é sempre posterior à leitura – um efeito deflagrado na memória e no tempo.



* Sergius Gonzaga - autor de livros didáticos e paradidáticos. Entre eles, o Manual de Literatura Brasileira; Dom casmurro (edição comentada, editora Leitura XXI) e Erico Veríssimo (Instituto Estadual do Livro - RS). Organizador e colaborador de obras coletivas como "O amor na literatura e Nós", "Os Gaúchos" - Editora da UFRGS, Cultura: Sergius Gonzaga. Nasceu em Taquara, RS. Formado em Letras pela Ufrgs. Professor de literatura brasileira da Ufrgs.


Fonte:
http://singrandohorizontes.wordpress.com/2008/05/12/sergius-gonzaga-a-importancia-da-literatura/

http://educaterra.terra.com.br/

* É NATAL OUTRA VEZ

*
Feliz Natal. Próspero Ano Novo



PRAÇA DA LIBERDADE ILUMINADA
Belo Horizonte - Brasil 
 
 

 
Welington Almeida Pinto

 
As casas nas cidades, cada dia mais, são verdadeiros anúncios luminosos anunciando o Natal. As praças e os jardins também. Milhares e milhares de lâmpadas coloridas enfeitam com tanta intensidade que transformam Belo Horizonte em Cidade-Luz.

Nos shoppings, principalmente. Neles a festa, alimentada pela força do marketing, abusam de anjos e arcanjos para reforçar Papai-Noel como personagem principal da folia de fim de ano. O bom velhinho, mesmo em tempos modernos, faz o maior sucesso entre a criançada que não abre mão de tirar uma foto sentada no seu colo.

Logo bate uma saudade danada dos natais guardados no bauzinho da infância, lá em Passos. Tudo muito alegre e encantado, como se o Menino Jesus estivesse distribuindo estrelas por todas as esquinas da minha cidade.

Nada de presentes caros. A gente se divertia mesmo era com aquele monte de miudezas que nos enchia de alegria e beleza. A festa começava na véspera com a reunião dos familiares para a preparação de uma farta ceia com leitões, patos ou franguinhos assados - peru ainda era uma ave rara. Mas também não podia faltar galinha gorda ao molho pardo, nem pão de queijo, broa de milho, rabanada e rosca da rainha. Muito menos, os doces em compotas guardados lá no ‘guarda-comida’, como de sidra, de goiaba, cortadas em taladas grossas.

Na noite do dia 24, geralmente chovia. Isso tinha pouca importância, o tempo feio não atrapalhava em nada a beleza da festa. Com a fantasia a mil, a meninada dormia mais cedo, cheia de expectativa. Antes de ir para cama, era costume cada um colocar os sapatos ao pé da Árvore de Natal ou nas janelas para o Papai–Noel deixar junto deles o seu esperado presente.  

Os adultos, todos animados, desde as 11 horas da noite, cantavam canções natalinas. Quando o relógio de Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Passos badalava as doze batidas da meia-noite, todos se juntavam para trocar abraços e beijinhos nas faces, desejando um para o outro, muita paz e muita felicidade. Em seguida, a troca de presentes e, só depois, a esperada ceia da ‘noite feliz’, devorada sem culpa. Naquela época todos sabiam que o que engorda não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo, mas o que se come entre o Ano Novo e o Natal.

Ao raiar do dia 25, o Natal amanhecia com a molecada divertindo com presentes bem bacanas. Hora de cada um exibir o seu brinquedo. Meninas passeavam com as bonecas, ou mostravam suas destrezas com o hula hoop, bamboleando na maior intimidade com os aros em torno da cintura. Os meninos brincavam de puxar o ‘caminhãozinho’ da vez, ou montados num cavalinho de pau, a galopar pelas calçadas. Cenas que ficam grudadas na memória para nunca mais sair.

Nessa paisagem não podia faltar nas mãos da criançada uma garrafa do guaraná Champagne, o famoso caçulinha, furado com prego na tampa. Achava ‘bão’ mesmo!... Melhor ainda: podíamos comer de tudo até doer o queixo, a qualquer momento, em nossa casa ou na dos parentes.

Desde que me entendo por gente ouço críticas ao consumismo natalino ‘não existe mais nenhum espírito cristão, é só comércio, dizia minha mãe por volta de 1960. Mas, sem sombra de dúvida, é uma festa alegre, mesmo para aqueles que não acreditam nos símbolos religiosos. Recarrega o coração e vai logo para o álbum de recordações.

Natal é presença, não ausência. É a alegria possível, porque a vida é muito curta e o amor é nosso maior dom, como ensina Chico Xavier. E Francisco, o papa, completa ao dizer que a estrela que indica o caminho não está tão distante assim, brilha dentro de cada um de nós.

- Hoje a noite é bela/Juntos, eu e ela/vamos à capela. Feliz Natal!!!... Ho ho ho.

* bambolê, criado no Egito há três mil anos, feito com fios secos de parreira, favorecia as crianças imitar os artistas que dançavam com aros em torno do corpo.

* FBN© - 2009 – NATAL OUTRA VEZ – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: crônica – Texto original em português - IIustr.: Internet – Link: http://cronicasbh.blogspot.com.br/2012/05/editar_6085.html

 

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*
 

 

* NUM BAILE


 
*
 



Welington Almeida Pinto


A certa altura de um baile no salão de festas do ‘Minas’, quando a pista de dança chamejava e desenrolava como uma apoteose de magia, eu e meu companheiro de mesa, resolvemos convidar para dançar duas jovens senhoras acomodadas numa das mesas lá no fundo do salão para dançar. Foi mal. Nem bem iniciamos a corte, fomos recusados por elas num coro único:

- Não dançamos.

Meu amigo, surpreso com a recusa, logo tomou outra direção sem dizer mais nada. De pé, ao lado delas, pensei que deveria conversar um pouco mais com as damas que estavam em um baile, desinteressadamente, pela alegria da dança.

Em tom cortês,  perguntei:

- Não gostam de dançar?

A que estava do meu lado, de cabelos curtos, respondeu:

- Eu até gosto. Hoje não estou a fim.

- Pena.

- Viemos aqui só para conversar e curtir a movimentação da festa.

- Pelo jeito admiram ver pessoas dançando.

- Isso mesmo - responde uma abrindo o sorriso. - O salão de festa desse clube me passa uma energia muito legal. Aqui brinquei muitos carnavais..., aqui comecei a tomar hi-fi e cuba libre... Háháhá..., aqui ia fumar escondido no banheiro e, por aí, vai alguns momento de minha juventude.

- Recordo do meu baile de 15 anos - entusiasma a de cabelos curtos - dos Bailes de Formatura, das Missas Dançantes aos domingos e tantos outros. Isso aqui sempre foi bem divertido...

Bons tempos!... Sabia todas as músicas de cor, mesmo as do novíssimo disco dos Beatles ou da Jovem Guarda – revela a outra.

Risos.

- Pelo que eu vejo, guardam muitas histórias vividas nesse salão, sim?

- E como!...

- Posso sentar um pouquinho?- perguntei rindo.

- Esteja à vontade.

Puxo a cadeira vazia do lado e me acomodo entre elas, dizendo:

- Sabem de uma coisa: vocês acabam de despertar em minha cabeça um fato parecido com esse momento que estamos vivendo, ocorrido há mais de um século.

- Não entendi - fecha o sorriso uma delas.

- Explico. Aconteceu com o poeta Trasíbulo Ferraz. Conhecem o baiano
Trasíbulo?

A de cabelos curtos pensa um pouquinho:

- Não. Nunca ouvi falar.

- Nem eu - adianta a outra.

- Certo dia o jovem Trasíbulo chamou uma moça, elegante e bonita como vocês, para dançar e foi rejeitado.

- Devia estar com os pés doendo - ironiza a moça de cabelos longos.

- Acho que não. O motivo era outro - apressei.

- Qual?

- Naquele tempo era comum encerrar um baile com alguém declamando um poema, acompanhado pelo som de um piano.

- Que romântico!... Conta.

- No baile de formatura de um amigo, realizado num palacete do
largo de São Pedro, em Salvador, o poeta e jornalista Trasíbulo, sem condições de comprar um traje de gala para a festa, compareceu com sua velha
casaca de veludo-pinhão, sobre um colete surrado. Apesar de recebido pelos colegas com alegria, foi rejeitado para uma contradança por uma donzela
ricamente vestida, que alegou ao mancebo indisposição para bailar, mas logo
aceitou o convite de outro, vestido a rigor.


Aborrecido com a ‘taboca’, nome dado à recusa, resolveu Trasíbulo aceitar o pedido para declamar uma poesia no final da festa. Chegada a hora, o poeta surpreendeu- se ao ver que a jovem que ia acompanhá-lo ao piano era a mesma que lhe negara a contradança. Não se abateu. Com a pose de um declamador experimentado, o polegar enfiado na cava do colete e a mão direita apertando o cabo da bengala, começou explicando que não ia declamar poesias conhecidas, mas improvisar uma ode dedicada à ocasião, a que deu o título de ‘A Orgulhosa’.

Ao fim da apresentação, tocada por uma forte emoção, a donzela não resistiu e tombou desfalecida sobre o teclado do instrumento musical, sendo socorrida pelo próprio poeta, enquanto era aplaudido por uma plateia entusiasmada.

- Nossa, que legal!... Enredo digno de um romance - adianta a mulher de
cabelos longos.

- E qual foi o poema? - pergunta a de cabelos curtos. - Pode dizer um pedacinho?

-A música está muito alta para recitar um verso. Escrevo uma estrofe nesse guardanapo.


Peguei o pedaço de papel e versei um trecho da poesia:



‘Deixa-te disso, criança,
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha’.

Calado, dobrei a folha, anotei no verso o nome do site, na internet, onde poderiam ler o poema inteiro e entreguei à jovem senhora de cabelos curtos. Ela sorriu agradecida. Antes de sair para minha mesa, estendeu-me o rosto e trocamos beijos nas faces. Em seguida, despedi da outra com um suave aperto de mãos e outro beijo, silenciosamente.

Satisfeito, voltei para a minha mesa feliz com a resposta tão rápida de
minha memória. Viva!...

* Para ver o poema completo, acesse:
http://versoslivres.blogspot.com.br/2010/07/intimidade-dos-versos.html


 

** Apesar de muita gente dar autoria a esses versos a Castro Alves
(1847-1871), são do poeta e jornalista baiano Trasíbulo Ferraz Moreira,
nascido em Lenções, na Chapada Diamantina, em 28 de janeiro do 1870. Ele
frequentou as faculdades de Direito do Recife e da Bahia, até o quarto ano.
Antes de concluir o curso, morreu por moléstia pulmonar. Foi redator-chefe
da "Gazeta de Notícias" de Salvador, onde também publicou poesia, contos e
crônicas. Autor do livro de contos "Poliformes" , publicado em 1896.
 
*** FBN© 2007 * NUM BAILE - Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto - novembro/2007 – Link: http://cronicasbh.blogspot.com.br/2012/05/editar_3939.html

 

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