20110715

* O AUTOR E SUA OBRA


  *
 Welington Almeida Pinto
 
 

Mineiro de São Roque. Apaixona-se desde cedo por livros, pela poesia, por personagens históricos e literários. Em 1971, conclui seus estudos em Passos, Minas, e transfere-se para Belo Horizonte, empregando-se no departamento contábil de uma empresa imobiliária, sem abandonar o gosto pela leitura dos grandes clássicos da literatura universal e a prática de Escritor e Jornalista.

 

Entusiasmado com o movimento cultural da Capital frequenta as reuniões da Academia Mineira de Letras e outras instituições culturais. Estimulado pela criação literária visita cidades da Europa e das Américas. De 1972 a 1976, Estuda no Centro de Pesquisas de Artes Plásticas da ACM, especializa-se em Publicidade e funda sua Agência.

 

No Teatro, produz ‘A Cela’, de sua autoria. Depois adapta e monta ‘Flicts’, de Ziraldo, como peça adulta, ambas dirigidas por Luciano Luppi. Participa da equipe de produção do espetáculo ‘A Noite dos Assassinos’, de José Triana, dirigida por Paulo Cesar Bicalho. Adapta ‘O Pequeno Príncipe’, de Antoine Saint-Exupery, para teatro infanto-juvenil, com trilha sonora de Fernando Boca e direção de Noema Tedesco. Publica Aula-Viva, com 6 scripts temáticos da História do Brasil para aplicação em Sala de Aula.

Eleito para o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, associa-se também à UBE – União Brasileira dos Escritores/São Paulo,SP, à ABRALE-Associação Brasileira de Autores de Livros Educativos/São Paulo,SP e à AEI-LEJ - Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil/Rio de Janeiro.

 

Publicou contos infantis no Gurilândia, do jornal ‘Estado de Minas’, Belo Horizonte, ‘Zero Hora Infantil’, Porto Alegre e ‘Gazetinha’, do Gazeta do Paraná, Curitiba.

 

Livros Publicados

 

Literatura infantil - Coleção Infantil Vitória Régia/Edita, 1997: ‘A Águia e o Coelho’ – ‘Clin-Clin, o Beija-Flor Mágico’ – ‘Tuffi, o Elefante Equilibrista’ – ‘Seu Coelhino, em Viagem ao Sol’ – ‘O Gato do Mato e o Preá’ e ‘A Caçada’ e ‘O Ataque do Furadentes’.

 

Literatura Infanto/Juvenil/Edições Brasileiras/1998: ‘Malta, o Peixinho Voador no São Chico’ – ‘Santos-Dumont, no Coração da Humanidade’ – ‘A Saga do Pau-Brasil’.

 

Literatura Adulta/Helbra/1969: ‘A Cela’ - Antologia Poética/2008 – ‘O Voo do Pássaro Dourado’.

 

Toponímia/Edita, 1987: ‘Dicionário Geográfico e Histórico do Estado de Minas Gerais’ – Edita, 1986 – ‘Dicionário Geográfico e Histórico do Estado de São Paulo’

 

Legislação Brasileira/Edições Brasileiras/1993: ‘Condomínio e suas Lei’s – ‘Licitações e Contratações Administrativas’ – ‘A Empregada Doméstica e suas Leis’ – ‘Lei do Inquilinato’ – ‘Assédio Sexual no Local de Trabalho’.

 

Dramaturgia/Edita/1978.: ‘A Cela’ – peça adulta, adaptação do livro do mesmo nome – ‘Flicts ‘- adaptação do livro “Flicts”, de Ziraldo – ‘Pequeno Príncipe’ - adaptação do livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry – ‘História do Brasil, em Aula Viva’ - adaptação de temas históricos para teatro, aplicados em sala de aula -

 

 

Homes na internet: welingtonpinto.blogspot.com – vários livros disponíveis rentabilizados pelo sistema Google Ad Sense. E-mail: welingtonapinto@gmail.com ; welingtonapinto@yahoo.com.br -

 

 

O AUTOR POR ELE MESMO:

 

Quando cheguei ao mundo, no ano de 1949, a 18 de março, a cegonha trouxe junto um anjo. E deixou um recado com a parteira: ... ele vai precisar, sempre. Ao tomar meu primeiro banho, soltei um grito e quase caí das mãos de minha bisavó. Creio que foi um grito e um gesto de alegria, aplaudindo a vida.

 

Aos dez, onze anos descobri a leitura através das obras de Vicente Guimarães ( Vovô Felício), Monteiro Lobato e outros. A partir daí comecei a construir meu universo de palavras, letra a letra, pondo em ordem aquele emaranhado de ideias que fervilhavam em minha cabeça.

 
            Nos anos 1960, apaixonado pela cultura, mudei-me para Belo Horizonte, onde imaginava cursar gratuitamente uma boa universidade. Logo percebi que isso era privilégio para poucos.

 

Autodidata, mergulhei cedo na literatura e no jornalismo, e depois na publicidade, quando iniciei a publicar meus livros. Meu anjo!?... Nem torto nem reto me ensinou a sorver a vida como quem saboreia uma poesia, mesmo que, às vezes, concreta demais.

 

* Encontro na Literatura o compromisso de uma obrigação que há anos venho lutando para cumprir. Welington

editar

*
 

* A VITÓRIA DA VITÓRIA

* 
    Welington Almeida Pinto

                                                             Festa de Formatura


No Brasil, colar grau é uma tradição que se comemora com muita pompa; bacharéis vestidos com a velha e tão sonhada beca, todos disciplinadamente perfilados no palco. Ao lado, as celebridades que não podem faltar à cerimônia: padrinhos, professores eméritos e o reitor da Universidade.
A festa começa cheia de apresentações e excesso de vaidade no contexto dos discursos. Dos alunos oradores. Dos Padrinhos. Todos curtos mas, mesmo assim, houve gente assoviando entre os espectadores como se estivesse querendo dizer: – Que coisa mais démodé!... Já estamos cansados desse expediente!...
Antes do reitor, professor Newton Paiva, se levantar para fazer o discurso de encerramento a platéia foi sutilmente advertida pelo burburinho. Ele, então, empunhou cerca de meia dúzia de folhas de papel escritas e foi logo enaltecendo a capacitação dos profissionais que formam em sua instituição de ensino superior. Depois teceu uma longa e demorada crítica à corrupção que impera nos três poderes do Brasil, numa tentativa de conscientizar a todos que é necessário formar cidadãos de brio e que, essa é uma função das boas escolas.  Por fim, elevou suas palavras a Deus, pedindo proteção a todos aqueles que ali estavam prontos para entrar no mercado de trabalho. Vão precisar, claro. Mas, como dizem os árabes: confie em Deus, mas amarre seu camelo.
Tudo como manda o figurino. Mas um fato deu outro tom à solenidade quando a orquestra da própria Universidade abriu sua apresentação com a canção de Milton Nascimento: “Eu caçador de mim”.  Em seguida, para a surpresa de todos, o maestro detona a batuta na apresentação de uma música de discoteca, lá dos tempos trepidantes de Travolta. Ah!... uma explosão de alegria no auditório. Tanto no palco como na platéia, ninguém resistiu às tentações da balada e, cada um no seu lugar, entrou no ritmo da ária dos tempos da brilhantina. Legal. Tudo reflete e tudo dança... literalmente.
No momento da entrega dos canudos, ao ver minha filha recebendo o certificado de conclusão do curso de Fisioterapia fiquei mais emocionado do que imaginava. Era a confirmação de sua capacidade para ingressar numa área de prestação de serviços que se pauta pelos conhecimentos, pela dedicação e, sobretudo, pelo humanismo. Puts! A emoção bateu mais forte ainda, seguida de mais brilho nos olhos, mais aperto na garganta e uma explosão incomum no peito... E pensei em voz alta: - Ô, filha, que Deus lhe dê humildade para aprender sempre. E assim, cheia de sabedoria, possa levar, cada vez mais, o conforto da cura aos seus pacientes.
Maria Vitória. Mais uma mulher que vai exercer seu papel cada vez mais engajado em todos os setores sociais do país, lembrando que o movimento feminino eclodiu com força total no ano de 1968, quando jovens do mundo todo, através de protestos e rupturas, conseguiram fazer a maior revolução cultural da história da humanidade. A partir daquele ano transformaram os costumes e os hábitos. A maneira de pensar também mudou. E de ser, idem. Hoje, estamos colhendo os frutos vitoriosamente compensados.
Por isso, obrigado a todos que torcem para que ela e todas essas mulheres encontrem seu espaço num mundo profissional em igualdade de condições.


FBN© 2008 * VITÓRIA DA VITÓRIA - Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto  – especialmente para minha filha Maria Vitória Ferreira Pinto – www.cronicasgeraes.blogspot.com


O ABADE TRAVESTIDO

*
Welington Almeida Pinto

 Padres a dançar e a cantar



                 Nava retira do maço mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçon, que se aproxima da sua mesa no salão do Café Estrela.
- Tudo bem, Epitácio?
- Tudo. O de sempre? – pergunta o rapaz.
- Não. Uma dose reforçada de Kummel.
- Animado, hein? – interfere Drummond, sentado ao lado.
- Epitácio, pode trazer – confirma Nava.
- Sim, senhor.
Virando-se para o amigo.
- Cadê o Emílio?
- Ficou de passar mais tarde. Pelas oito.
- Ótimo. Enquanto ele não dá as caras conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático que recebi de Paris. Interessa?
- Sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.
- Estampa uma notícia em que revela a história de um abade no moldes carnavalescos de Don Juan.
- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.
- Não é não. Criatura engraçada, de morrer de rir.
- Quem é o herói?
- Um religioso pervertido que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na França. Vestia-se de mulher para fazer suas conquistas.
Drummond admirado:
- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda classe!
- Não é não. De carne e osso. Há relatos e obras preservados no “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Já ouviu dizer?
- Não.
- Faz parte de uma coleção de livros imorais guardada, a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.
- Nunca li nada a respeito.
- Abade francês tinha o desejo sexual como o fio condutor de sua vida. Era fogo. Seduzia as francesinhas da corte de Luis XIV com a promessa de compartilhar ‘segredinhos femininos’ – elucida Nava.
- Curuis credo!
- Que cara é essa, Drummond?
- Difícil de acreditar.
- Escolhia suas presas para suas farrinhas sexuais pelo aspecto da pele, pelo brilho do cabelo, pela idade e, consequentemente, pela classe social.
- Você não pode estar falando sério.
- Sério.
- Ó mon Dieu! – exclama o poeta.
Risos. Nava:
- Dizem que esse leal e devasso representante de ‘São Príapo’, numa homilia diária, doutrinava suas discípulas no sentido de que sexo no casamento não deveria ser enfadonho.
- Caramba! Quando foi isso?
- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico. Dentro dele haviam claros jardins, coloridos por confetes e serpentinas, onde mil e uma donzelas brincavam e riam festejando a carne.
- Hurra!... É um desvio.
Nava em tom recitado:
- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso, esconde-se uma dissimulação de Jesuíta. Ninguém melhor do que ele para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé..., como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.
- Ah, essa é boa!
O memorialista abre um risinho quente e curto, como de cócegas.
- Pois é. O sagrado, além desse e de outros casos, há muito vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual. Em seu redor, passarinhos continuam esvoaçando em silêncio.
- Abomino. Abomino.
- Os limites, Drummond, impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites.
- Aposto que ele foi expulso da congregação por insubordinação mental e sexual. Sem dúvida, curte as fontes luminosas do inferno de Dante – assevera Drummond.
Pedro entorna o resto do licor de anis escarchado. E pede uma dose chorada de conhaque francês. Carlos, com um sorriso indiferente, olha para o amigo. Retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antarctica.

• FBN© 201 – O ABADE TRAVESTIDO/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.



Sobre o carnaval, história:
O termo carnaval teve ascendência no dialeto milanês: carnevalle - tempo em que se tira para o uso da carne. A festa teve origem na Grécia dez mil a.C., quando homens, mulheres e crianças se reuniam no verão com os rostos mascarados e corpos pintados para espantar os demônios da má colheita e pedir aos deuses fertilidade para o solo. Os romanos comemoravam a festa com o nome Bacchalia em homenagem a Baco, deus do vinho e da orgia, durante três dias de cada ano.
No Brasil o carnaval chegou por volta 1700. Com total irreverência, cada cidade brinca a seu modo, e de acordo com seus costumes e cultura.

* NUM BAILE COM TRASÍBULO

 
 *

Welington Almeida Pinto


         A certa altura do Baile, entendemos, eu e meu companheiro de mesa, de convidar duas jovens senhoras para dançar; estavam elas sentadas numa das mesas lá no fundo do salão. Foi mal. Nem bem iniciamos a corte, fomos recusados por elas num coro único:
- Não dançamos.
Meu amigo, surpreso com a recusa, toma outra direção sem dizer mais nada. De pé, ao lado delas, pensei que deveria conversar um pouco mais com as damas. Insisti:
- Não gostam de dançar?
A que estava do meu lado, de cabelo mais curto, respondeu:
- Gosto, mas hoje não estou a fim.
- Pena.
- Viemos aqui para conversar e curtir a movimentação da festa.
- Gostam de ver as pessoas dançando? – perguntei.
- Isso mesmo – responde uma. - O salão de festa deste clube me passa uma energia muito legal. Aqui brinquei muitos carnavais..., aqui comecei a tomar hi-fi. Cuba libre também. Háháhá... aqui ia fumar escondido no banheiro e, por aí, vai.
A outra de cabelos mais curtos.
- Recordo do meu Baile de 15 anos. Dos  bailes de formatura, debutantes, das missas dançantes aos domingos e tantos outros eventos que jamais vou esquecer. Bons tempos!... Sabia todas as músicas de cor, mesmo as do novíssimo disco dos Beatles ou da Jovem Guarda.
- Pelo que vejo, têm muitas histórias vividas neste clube.
- E como!... – responde uma delas.
- Posso sentar um pouquinho só?
- Esteja à vontade.
Puxo a cadeira da mesa ao lado que estava vazia e me acomodo no meio das duas, dizendo:
- Sabem de uma coisa: vocês acabam de despertar em minha mente um fato parecido com esse momento que estamos vivendo, ocorrido há mais de um século.
- Não entendi – fecha o sorriso uma delas.
- Explico. Aconteceu com o poeta Trasíbulo Ferraz. Conhecem o baiano Trasíbulo?
A outra pensa um pouquinho:
- Não. Nunca ouvi falar.
- Nem eu – adianta a de cabelos mais curtos.
- Certo dia o jovem Trasíbulo chamou uma moça, elegante e bonita como vocês, para dançar e foi rejeitado por ela.
- Ela devia estar com os pés doendo – ironiza a moça de cabelos longos.
- Acho que não. O motivo era outro – apressei.
- Qual?
- Desejam saber?
- Sim. Sim.
Tenho que contar como tudo aconteceu, posso?
- Claro. Estou curiosa – confessa a de cabelo mais curto.
- Sabem que naquele tempo era comum encerrar uma festa com alguém declamando um poema, acompanhado por uma boa música tocada ao piano?
- Que romântico!... Conta.
- Pois bem, no baile de formatura de um amigo, realizado num palacete do largo de São Pedro, em Salvador, o poeta e jornalista Trasíbulo, sem condições de comprar um traje de gala para a festa, compareceu com sua velha casaca de veludo-pinhão, sobre um colete florido. Foi recebido pelos colegas com alegria, mas rejeitado para uma contradança por uma das donzelas, ricamente, vestidas no salão. A moça alegou indisposição para bailar, mas logo aceitou o convite de outro mancebo, vestido a rigor.
Aborrecido com a ‘taboca’, nome dado à recusa, resolveu aceitar o pedido para declamar uma poesia no final da festa.
Chegada a hora, Trasíbulo surpreendeu-se ao ver que a jovem que ia acompanhá-lo ao piano era a mesma que lhe negara a contradança. Não se abateu. Com a pose de um declamador experimentado, o polegar enfiado na cava do colete e a mão direita apertando o cabo da bengala, o poeta começou explicando que não ia declamar poesias conhecidas, mas improvisar uma ‘ode’ dedicada à ocasião, a que deu o título de ‘A Orgulhosa’. E assim fez.
Ao fim da apresentação, tocada por uma forte emoção, a donzela não resistiu e tombou desfalecida sobre o teclado do instrumento musical, sendo socorrida pelo próprio poeta, enquanto era aplaudido por uma platéia entusiasmada.
- Nossa, que legal!... Enredo digno de um romance - adianta a moça de cabelos longos.
- Sabe de cor o poema? – pergunta a outra.
- Sim.
 - Pode dizer um pedacinho?
- Não. O barulho aqui dentro, com a banda tocando, está muito alto. Escrevo uma estrofe neste guardanapo, certo?
- Claro – responderam numa só voz.
Assim fiz. Peguei o pedaço de papel e versei um trecho da poesia:

“Deixa-te disso, criança,
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha”.

Dobrei a folha, anotei no verso o nome do site, na internet, onde poderiam ler o poema inteiro e entreguei à jovem senhora de cabelos mais curtos. Ela sorriu agradecida e, antes de sair, estendeu-me o rosto e trocamos beijos nas faces. Em seguida, despedi da outra com um suave aperto de mãos.
Satisfeito, voltei para a minha mesa feliz com a resposta tão rápida de minha memória. Viva!...

* Para ver o poema completo, acesse: www.versoslivres.blogspot.com
* Esse poema, apesar de muita gente pensar que é de Castro Alves (1847-1871), é do poeta e jornalista baiano Trasíbulo Ferraz Moreira, nascido em Lenções, na Chapada Diamantina, em 28 de janeiro do 1870. Ele freqüentou as faculdades de Direito do Recife e da Bahia, até o quarto ano. Antes de concluir o curso, morreu por moléstia pulmonar. Foi redator-chefe da “Gazeta de Notícias” de Salvador, onde também publicou poesia, contos e crônicas. Autor do livro de contos “Poliformes”, publicado em 1896.
• FBN© 2006 * NUM BAILE - Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto – novembro/2006.

20110710

* A VIDA EM BRONZE

*

Programa de TV: Gente

Domingo de sol encoberto. Tempo frio, ameaçando chuvas. Bom para ficar em casa, abrir uma cervejinha, ouvir uma boa música e, quem sabe, acessar memórias e emoções guardadas no inconsciente.
Assim, como numa película, as lembranças de alguns companheiros de literatura começam a movimentar minha cabeça: o Henry Correia de Araújo, o poeta Antônio Barreto, Blay Barbosa, Célius Aulicus, Chico Motta..., o saudoso França Júnior. Tanto que bateu uma vontade de sair de casa e procurar um bardo daquele tempo para um bate-papo numa mesa de bar.
Pensei chamar o poeta Reis para visitar outro poeta: Paschoal Motta, no bairro Cachoeirinha. Mas, com um tempo feio desse, desisti. Achei melhor caminhar até o ‘Café da Travessa’ e, quem sabe, encontrar o Belisário, um dos poucos literatos que ainda encontro, vez ou outra, pelos bares da vida.
Saio de casa a pé, levando apenas um guarda-chuva. Desço a rua Leopoldina num só trote, pego a avenida do Contorno e, em poucos minutos, chego ao estabelecimento, na Savassi. Surpresa: casa fechada.
Sem ter mais o que fazer, atravesso a Getúlio Vargas e paro em frente à estátua de Roberto Drummond, plantada na praça Diogo Vasconcelos - praça que divide o fluxo de gente que vem do Centro, dos Funcionários, de Lourdes para a região da Savassi, principalmente.
Surpreendo-me com o estado de conservação do bronze, que não está à mercê dos pombos e das intempéries. Parabéns. Giro o corpo, lentamente, em torno da estátua, sento-me num banco ao lado do escrevinhador que levou poesia à crônica esportiva em Belo Horizonte. Daí, logo começo a imaginar mil coisas a respeito de quem já morreu e tem uma escultura em sua homenagem na região da cidade que tanto inspirou sua obra.
Afinal, Roberto é a primeira pessoa imortalizada em um monumento que conheci na vida. Caso raro, eu sei. Lembro que dois dias antes dele se ‘encantar’, passando pelos jardins da Boa Viagem encontrei o companheiro parado numa das portas laterais da Igreja. Ao parar para cumprimentá-lo, a primeira coisa que perguntei foi o que fazia ali tão sozinho. Ele comprimiu o sorriso e disse: nada, perambulando.
Aguçado de novo pelas indagações, observo que uma ou outra pessoa adulta movida pela curiosidade, tocava no corpo estático do escritor comentando alguma coisa. Em seguida, duas crianças chegam e começam a brincar com a imagem de ferro. Primeiro, fingem tomar o livro que Roberto tem numa das mãos. Depois, pegam a se enroscar no corpo mineral do escritor rindo à beça, divertindo muito.
 - Meu amigo, que saudade! Sua lembrança na história da literatura brasileira é forte. Sabia colorir uma narrativa esportiva de forma especial, como grande craque da palavra escrita.
Interessante!... Não há como negar, as estátuas são mesmo testemunhas silenciosas de um passado de glória. Tão confortantes à memória das pessoas que, na Europa, até as figuras menos célebres também são imortalizadas em praças públicas - na França, Mademoiselle Anne Marie, a queijeira que aprimorou a receita do queijo camembert, está lá toda imponente na entrada de sua cidade, imortalizada em bronze.
Dia 22 de junho de 2006 a literatura brasileira perdia um dos seus bons autores. Freqüentador assíduo do MTC, tinha no Minas I clube um dos lugares preferidos para pensar seus momentos de inspiração. Como a revista de junho do clube não trouxe notinha nenhuma sobre o escritor, sugerimos que numa próxima edição o assunto possa ser refletido pela Diretoria de Cultura e, quem sabe, até nomear algum espaço em sua homenagem. Difundir e preservar a cultura é garantir no homem um futuro, ao Brasil a certeza de desenvolvimento humano.

• FBN© 2006 * A VIDA EM BRONZE - Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto – abril/2006.

20110523

* O ABADE TRAVESTIDO

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Welington Almeida Pinto


Padres em festa alegre


                 Nava retira do maço mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçon, que se aproxima da sua mesa no salão do Café Estrela.
- Tudo bem, Epitácio?
- Tudo. O de sempre? – pergunta o rapaz.
- Não. Uma dose reforçada de Kummel.
- Animado, hein? – interfere Drummond, sentado ao lado.
- Epitácio, pode trazer – confirma Nava.
- Sim, senhor.
Virando-se para o amigo.
- Cadê o Emílio?
- Ficou de passar mais tarde. Pelas oito.
- Ótimo. Enquanto ele não dá as caras conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático que recebi de Paris. Interessa?
- Sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.
- Estampa uma notícia em que revela a história de um abade no moldes carnavalescos de Don Juan.
- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.
- Não é não. Criatura engraçada, de morrer de rir.
- Quem é o herói?
- Um religioso pervertido que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na França. Vestia-se de mulher para fazer suas conquistas.
Drummond admirado:
- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda classe!
- Não é não. De carne e osso. Há relatos e obras preservados no “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Já ouviu dizer?
- Não.
- Faz parte de uma coleção de livros imorais guardada, a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.
- Nunca li nada a respeito.
- Abade francês tinha o desejo sexual como o fio condutor de sua vida. Era fogo. Seduzia as francesinhas da corte de Luis XIV com a promessa de compartilhar ‘segredinhos femininos’ – elucida Nava.
- Curuis credo!
- Que cara é essa, Drummond?
- Difícil de acreditar.
- Escolhia suas presas para suas farrinhas sexuais pelo aspecto da pele, pelo brilho do cabelo, pela idade e, consequentemente, pela classe social.
- Você não pode estar falando sério.
- Sério.
- Ó mon Dieu! – exclama o poeta.
Risos. Nava:
- Dizem que esse leal e devasso representante de ‘São Príapo’, numa homilia diária, doutrinava suas discípulas no sentido de que sexo no casamento não deveria ser enfadonho.
- Caramba! Quando foi isso?
- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico. Dentro dele haviam claros jardins, coloridos por confetes e serpentinas, onde mil e uma donzelas brincavam e riam festejando a carne.
- Hurra!... É um desvio.
Nava em tom recitado:
- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso, esconde-se uma dissimulação de Jesuíta. Ninguém melhor do que ele para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé..., como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.
- Ah, essa é boa!
O memorialista abre um risinho quente e curto, como de cócegas.
- Pois é. O sagrado, além desse e de outros casos, há muito vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual. Em seu redor, passarinhos continuam esvoaçando em silêncio.
- Abomino. Abomino.
- Os limites, Drummond, impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites.
- Aposto que ele foi expulso da congregação por insubordinação mental e sexual. Sem dúvida, curte as fontes luminosas do inferno de Dante – assevera Drummond.
Pedro entorna o resto do licor de anis escarchado. E pede uma dose chorada de conhaque francês. Carlos, com um sorriso indiferente, olha para o amigo. Retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antarctica.

• FBN© 201 – O ABADE TRAVESTIDO/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.



Sobre o carnaval, história:
O termo carnaval teve ascendência no dialeto milanês: carnevalle - tempo em que se tira para o uso da carne. A festa teve origem na Grécia dez mil a.C., quando homens, mulheres e crianças se reuniam no verão com os rostos mascarados e corpos pintados para espantar os demônios da má colheita e pedir aos deuses fertilidade para o solo. Os romanos comemoravam a festa com o nome Bacchalia em homenagem a Baco, deus do vinho e da orgia, durante três dias de cada ano.
No Brasil o carnaval chegou por volta 1700. Com total irreverência, cada cidade brinca a seu modo, e de acordo com seus costumes e cultura.




* ACONTECEU NAQUELE BAILE

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Welington Almeida Pinto


You-Tube - Dança MTC


       
SÓFOCLES larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos na Sala de Leitura do clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.
Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio com capa de couro e o emblema do clube agasalhado pelas palavras: educação, cultura e esporte; ao lado um cinzeiro de metal.
Examina outra vez o salão, quase todo lotado, observando a gente das outras mesas, com a melhor cara do mundo de uma sociedade burguesa, exagerando no gestual de cordialidade. O rumor de vozes enchia o ar, como imenso coral festivo.
Em seguida estala os dedos solicitando a atenção de um garçom que servia logo adiante. Depois de um aceno de cabeça ele não demora atendê-lo.
- Boa noite, doutor.
- Oi. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.
- Desculpe-me, senhor.
- Sem essa. Por favor, uma cerveja e dois copos.
- Brahma ou Antártica?
- Port, da Alterosa?
- Não. Trabalhamos apenas com as duas marcas.
- Então, a mais gelada.
- Alguma outra coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por favor – pede o garçon.
- Comanda!?....
- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.
- Obrigado. Trago a bebida em um minuto.
- Bem gelada, por favor – reforça Sófocles.
O moço sai e logo volta com o pedido.
- Com ou sem colarinho?
- Com.
O salão estava cheio. Barulho tão grande como o de um recreio de colégio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo fazendo um esforço heróico para melhor atender os clientes. Enquanto esperava pela cerveja Sófocles acende um cigarro, ainda entretido com as pessoas saudando uma às outras, falando, rindo, sentadas ou circulando pelo recinto - mulheres vestidas a rigor e homens com cara de acionistas de bolsa de valores.
Minutos depois as cortinas do palco se abrem e a orquestra começa a tocar. A iluminação clara e incandescente foi rapidamente trocada por uma mais fraca, deixando o salão numa leve penumbra com ar de sensualidade. Num instante os primeiros casais chegam à pista para dançar. Em seguida, outros e mais outros em diversos graus de intimidade: uns acanhados, outros mais empolgados e os mais contidos que mostravam no rosto rugas características de quem muito se preocupa com as coisas. Numa área, ao lado do palco, os mais jovens dançam separados; cada um com a alma mais agitada do que o outro, contorcendo o corpo para acompanhar o ritmo febril da música.
Encantado com a festa, mas ainda oculto na penumbra da garrafa escura de uma cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma moça para dançar. Logo, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres sentadas ao redor e, também, para as que se misturavam no vai-e-vem do salão.
Do outro lado da pista, uma com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocando olhares cúmplices, vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos – ela podia ver de onde estava. Até que, estimulado pelo flerte, ele eleva o copo, faz um brinde no ar e sorri retribuindo-lhe o gesto, como se fossem velhos conhecidos. Em seguida, sem vacilar fez-lhe um sinal de mão convidando-a para sua mesa. A moça balança a cabeça, concordando. Minutos depois, ela deixa seu lugar e se aproxima dele, sorridente:
- Ei.
- Olá, encantado.
O homem fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para acompanhá-lo em um drinque, já puxando a cadeira. A moça agradece com um meigo rizinho nas faces e senta-se colando as mãos em cima da mesa.
- Obrigada.
- É um prazer.
- Sozinho?
- Sim. Solidão, às vezes, é bom. Equilibra corpo e alma.
- Isso é ótimo.
- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles, entusiasmado.
- Ó, não!... Assim me encabula.
- Não precisa.
- É novo por aqui? – pergunta a moça.
- A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto debutante! – brinca o homem, enquanto suas mãos caminhavam na toalha até encontrar-se com as dela. E se apertam.
- Seja bem-vindo – deseja a mulher.
- O salão é muito bonito, imponente.
- Meio art nouveau. Antigo, mas bem conservado.
- Claro.
- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha freqüento esse salão de festas.
- Imagino.
- Gosta de dançar?
- Danço mal – responde o homem.
- Mesmo?
- Sim.
- Não tem importância, aqui ninguém liga – garante a mulher.
- Melhor assim. E você, o que deseja beber?
- Acompanho você na cerveja.
Sófocles imediatamente enche o outro copo.
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tintim. Um brinde à festa.
- Tintim – repete Sófocles, tlintlincando os copos.
- Sabia que toda sexta tem um bailinho?
- Ah, é!... Prometo ser um freqüentador assíduo.
- Vai gostar, logo-logo se enturma.
- Melhor. Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles! Xará do dramaturgo grego?
- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.
- Olha!
- Gosto dele.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei. Adorei – revela Luciana.
Segundo Freud, representa o drama de todos nós.
- Será?
- Talvez sim, talvez não.
- Ai, que resposta mais vaga! – contesta Luciana.
- Achou? E você, o que faz na vida?
- Sou professora. Cursei Letras.
- Letras!
- Leciono no Estadual Central.
- Apenas ensina literatura ou escreve também?
- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva.
- Então deve ser uma excelente professora.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, adoro mulheres inteligentes. Para mim a inteligência feminina é também afrodisíaca.
- Afrodisíaca!!!
- Isso mesmo, afrodisíaca.
- Está brincando!... Quer dizer que a inteligência feminina excita?
- Muito – afirma o homem sorrindo.
- Ô louco! Meio cômico, mas...
- Mas?
- Deixe p’ra lá. E você, escreve?
- Sim. Ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Mas, quando a inspiração bate faço literatura.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher e permanece por um período admirando seus lábios, cobertos de vermelho. Elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.
- Paris!
- É. Conhece?
- Nunca fui a Paris. Mas, está me parecendo um observador perspicaz.
- O belo atrai, sempre.
A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul em que moldava o corpo bem feito, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra, depositava as mãos. E elogiava:
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!...
- Ah, o seu perfume!...
- Magriffe.
- Os franceses são os melhores.
- Também adoro. Posso revelar um segredo?
- Claro.
- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.
- Meu Deus, a idade que acha que tenho?
- Sim.
- Quando as pessoas me perguntam a idade sabe o que digo?
- Nem imagino.
- Eu digo: depende do dia.
- Ah, é? Por exemplo, hoje.
- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove, onze meses e vinte e um dias.
A moça ri descontraída. Depois filosofa:
- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.
- Fabuloso. Quem disse isso?
- Coco Chanel.
        - Não sabia que a estilista também filosofava.
- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas tem talento de sobra na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha. – afirma a mulher.
- Protesto. Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.
Risos.
Grandes focos azulados de luz, a todo minuto, riscavam as paredes e o teto do salão. Entusiasmado, Sófocles faz um sinal ao garçon que chega deslizando entre as cadeiras.
- Outra, por favor.
Luciana eleva os olhos. E um sorriso se precipita neles.
- Tive uma idéia: vamos dançar?
- Dançar?
- É, dançar.
- Daqui há pouco.
- Agora.
- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho; o álcool lubrifica as juntas de minhas pernas.
- Pena.
- Só mais um tempinho.
- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?
- Já?
- Foi um prazer.
- Assim que tocar um bolero, tiro você p’ra dançar. Posso?
- Bolero?
- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...
- Espertinho!
- Meu coração deseja vê-la novamente.
- Combinado.
Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana se levanta, despedindo:
- Tiauzinho.
- Espere.
- O que foi?
Sófocles, cada vez mais pensando no brilho dos lábios molhados da fêmea que pediam mergulho, toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para a sua boca. Com a respiração anarquizada, ela abaixa a cabeça e deixa a mesa remexendo os quadris, rindo do gesto audacioso.
 A festa continuava acalorada. Antes do baile acabar o homem decide ir embora. Deixa morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Entregue a esses devaneios, chama o garçom e paga a conta. Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pela música dos anos sessenta que ainda tocava: ... Óóóóhhh... Óóóhhh Diana, por favor...
- Valeu!... - suspira, enquanto pegava no bolso das calças a chave do carro, levando no olhar os olhos dela, acesos num brilho ponderado de brando corte.
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FBN© 1996- Aconteceu Naquele Baile/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.