20110523

* O ABADE TRAVESTIDO

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Welington Almeida Pinto


Padres em festa alegre


                 Nava retira do maço mais um cigarro e acende. Depois da primeira tragada, expande no rosto um sorriso maroto e, num estalar dos dedos, chama a atenção de um garçon, que se aproxima da sua mesa no salão do Café Estrela.
- Tudo bem, Epitácio?
- Tudo. O de sempre? – pergunta o rapaz.
- Não. Uma dose reforçada de Kummel.
- Animado, hein? – interfere Drummond, sentado ao lado.
- Epitácio, pode trazer – confirma Nava.
- Sim, senhor.
Virando-se para o amigo.
- Cadê o Emílio?
- Ficou de passar mais tarde. Pelas oito.
- Ótimo. Enquanto ele não dá as caras conto algo fabuloso que li hoje num pasquim nefelibático que recebi de Paris. Interessa?
- Sou todo ouvido – dispõe o poeta, curioso.
- Estampa uma notícia em que revela a história de um abade no moldes carnavalescos de Don Juan.
- Ora Nava, se for lorota, não. Agradeço.
- Não é não. Criatura engraçada, de morrer de rir.
- Quem é o herói?
- Um religioso pervertido que, como se fosse a manifestação terrestre do diabo, viveu fantásticas histórias de amor na França. Vestia-se de mulher para fazer suas conquistas.
Drummond admirado:
- Deve ser mais um personagem imaginário de algum escritor francês de segunda classe!
- Não é não. De carne e osso. Há relatos e obras preservados no “L’ Enfer de la Biliothèque Nationalle, Eros au Secret”. Já ouviu dizer?
- Não.
- Faz parte de uma coleção de livros imorais guardada, a sete chaves, na Biblioteca Nacional da França, desde o século XIX, por ordem de Napoleão Bonaparte.
- Nunca li nada a respeito.
- Abade francês tinha o desejo sexual como o fio condutor de sua vida. Era fogo. Seduzia as francesinhas da corte de Luis XIV com a promessa de compartilhar ‘segredinhos femininos’ – elucida Nava.
- Curuis credo!
- Que cara é essa, Drummond?
- Difícil de acreditar.
- Escolhia suas presas para suas farrinhas sexuais pelo aspecto da pele, pelo brilho do cabelo, pela idade e, consequentemente, pela classe social.
- Você não pode estar falando sério.
- Sério.
- Ó mon Dieu! – exclama o poeta.
Risos. Nava:
- Dizem que esse leal e devasso representante de ‘São Príapo’, numa homilia diária, doutrinava suas discípulas no sentido de que sexo no casamento não deveria ser enfadonho.
- Caramba! Quando foi isso?
- Ele viveu de 1644 a 1724. Não é à toa que o mocinho recebeu o apelido de Kama Sutra católico. Dentro dele haviam claros jardins, coloridos por confetes e serpentinas, onde mil e uma donzelas brincavam e riam festejando a carne.
- Hurra!... É um desvio.
Nava em tom recitado:
- Por baixo do seu ar submisso e respeitoso, esconde-se uma dissimulação de Jesuíta. Ninguém melhor do que ele para se aproximar sorrateiramente e dar uma mordida no pé..., como bem diz Tchekhov num dos seus contos ao descrever um cão sardento.
- Ah, essa é boa!
O memorialista abre um risinho quente e curto, como de cócegas.
- Pois é. O sagrado, além desse e de outros casos, há muito vem conquistando cadeira cativa no mundo da concupiscência sexual. Em seu redor, passarinhos continuam esvoaçando em silêncio.
- Abomino. Abomino.
- Os limites, Drummond, impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites.
- Aposto que ele foi expulso da congregação por insubordinação mental e sexual. Sem dúvida, curte as fontes luminosas do inferno de Dante – assevera Drummond.
Pedro entorna o resto do licor de anis escarchado. E pede uma dose chorada de conhaque francês. Carlos, com um sorriso indiferente, olha para o amigo. Retira do bolso o relógio e confere as horas. Logo diz ao garçom que apetecia tomar Guaraná Champagne Antarctica.

• FBN© 201 – O ABADE TRAVESTIDO/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.



Sobre o carnaval, história:
O termo carnaval teve ascendência no dialeto milanês: carnevalle - tempo em que se tira para o uso da carne. A festa teve origem na Grécia dez mil a.C., quando homens, mulheres e crianças se reuniam no verão com os rostos mascarados e corpos pintados para espantar os demônios da má colheita e pedir aos deuses fertilidade para o solo. Os romanos comemoravam a festa com o nome Bacchalia em homenagem a Baco, deus do vinho e da orgia, durante três dias de cada ano.
No Brasil o carnaval chegou por volta 1700. Com total irreverência, cada cidade brinca a seu modo, e de acordo com seus costumes e cultura.




* ACONTECEU NAQUELE BAILE

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Welington Almeida Pinto


You-Tube - Dança MTC


       
SÓFOCLES larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos na Sala de Leitura do clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.
Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio com capa de couro e o emblema do clube agasalhado pelas palavras: educação, cultura e esporte; ao lado um cinzeiro de metal.
Examina outra vez o salão, quase todo lotado, observando a gente das outras mesas, com a melhor cara do mundo de uma sociedade burguesa, exagerando no gestual de cordialidade. O rumor de vozes enchia o ar, como imenso coral festivo.
Em seguida estala os dedos solicitando a atenção de um garçom que servia logo adiante. Depois de um aceno de cabeça ele não demora atendê-lo.
- Boa noite, doutor.
- Oi. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.
- Desculpe-me, senhor.
- Sem essa. Por favor, uma cerveja e dois copos.
- Brahma ou Antártica?
- Port, da Alterosa?
- Não. Trabalhamos apenas com as duas marcas.
- Então, a mais gelada.
- Alguma outra coisa, senhor?
- Por agora, não.
- A comanda, por favor – pede o garçon.
- Comanda!?....
- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?
- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.
- Obrigado. Trago a bebida em um minuto.
- Bem gelada, por favor – reforça Sófocles.
O moço sai e logo volta com o pedido.
- Com ou sem colarinho?
- Com.
O salão estava cheio. Barulho tão grande como o de um recreio de colégio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo fazendo um esforço heróico para melhor atender os clientes. Enquanto esperava pela cerveja Sófocles acende um cigarro, ainda entretido com as pessoas saudando uma às outras, falando, rindo, sentadas ou circulando pelo recinto - mulheres vestidas a rigor e homens com cara de acionistas de bolsa de valores.
Minutos depois as cortinas do palco se abrem e a orquestra começa a tocar. A iluminação clara e incandescente foi rapidamente trocada por uma mais fraca, deixando o salão numa leve penumbra com ar de sensualidade. Num instante os primeiros casais chegam à pista para dançar. Em seguida, outros e mais outros em diversos graus de intimidade: uns acanhados, outros mais empolgados e os mais contidos que mostravam no rosto rugas características de quem muito se preocupa com as coisas. Numa área, ao lado do palco, os mais jovens dançam separados; cada um com a alma mais agitada do que o outro, contorcendo o corpo para acompanhar o ritmo febril da música.
Encantado com a festa, mas ainda oculto na penumbra da garrafa escura de uma cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma moça para dançar. Logo, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres sentadas ao redor e, também, para as que se misturavam no vai-e-vem do salão.
Do outro lado da pista, uma com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocando olhares cúmplices, vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos – ela podia ver de onde estava. Até que, estimulado pelo flerte, ele eleva o copo, faz um brinde no ar e sorri retribuindo-lhe o gesto, como se fossem velhos conhecidos. Em seguida, sem vacilar fez-lhe um sinal de mão convidando-a para sua mesa. A moça balança a cabeça, concordando. Minutos depois, ela deixa seu lugar e se aproxima dele, sorridente:
- Ei.
- Olá, encantado.
O homem fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para acompanhá-lo em um drinque, já puxando a cadeira. A moça agradece com um meigo rizinho nas faces e senta-se colando as mãos em cima da mesa.
- Obrigada.
- É um prazer.
- Sozinho?
- Sim. Solidão, às vezes, é bom. Equilibra corpo e alma.
- Isso é ótimo.
- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles, entusiasmado.
- Ó, não!... Assim me encabula.
- Não precisa.
- É novo por aqui? – pergunta a moça.
- A primeira vez.
Ela ri com ar de surpresa.
- Que bom!
- Me sinto debutante! – brinca o homem, enquanto suas mãos caminhavam na toalha até encontrar-se com as dela. E se apertam.
- Seja bem-vindo – deseja a mulher.
- O salão é muito bonito, imponente.
- Meio art nouveau. Antigo, mas bem conservado.
- Claro.
- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha freqüento esse salão de festas.
- Imagino.
- Gosta de dançar?
- Danço mal – responde o homem.
- Mesmo?
- Sim.
- Não tem importância, aqui ninguém liga – garante a mulher.
- Melhor assim. E você, o que deseja beber?
- Acompanho você na cerveja.
Sófocles imediatamente enche o outro copo.
- Um brinde aos seus belos olhos.
- Tintim. Um brinde à festa.
- Tintim – repete Sófocles, tlintlincando os copos.
- Sabia que toda sexta tem um bailinho?
- Ah, é!... Prometo ser um freqüentador assíduo.
- Vai gostar, logo-logo se enturma.
- Melhor. Qual o seu nome?
- Luciana. E o seu?
- Sófocles.
- Sófocles! Xará do dramaturgo grego?
- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.
- Olha!
- Gosto dele.
- Nos tempos de faculdade li Édipo Rei. Adorei – revela Luciana.
Segundo Freud, representa o drama de todos nós.
- Será?
- Talvez sim, talvez não.
- Ai, que resposta mais vaga! – contesta Luciana.
- Achou? E você, o que faz na vida?
- Sou professora. Cursei Letras.
- Letras!
- Leciono no Estadual Central.
- Apenas ensina literatura ou escreve também?
- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva.
- Então deve ser uma excelente professora.
- Me esforço.
- Sabe de uma coisa, adoro mulheres inteligentes. Para mim a inteligência feminina é também afrodisíaca.
- Afrodisíaca!!!
- Isso mesmo, afrodisíaca.
- Está brincando!... Quer dizer que a inteligência feminina excita?
- Muito – afirma o homem sorrindo.
- Ô louco! Meio cômico, mas...
- Mas?
- Deixe p’ra lá. E você, escreve?
- Sim. Ganho a vida produzindo textos.
- Jornalista?
- Publicitário. Mas, quando a inspiração bate faço literatura.
- Pelo jeito, deve bater sempre.
Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher e permanece por um período admirando seus lábios, cobertos de vermelho. Elogia:
- Você tem uma boca bonita.
Antes que ela dissesse qualquer coisa:
- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.
- Paris!
- É. Conhece?
- Nunca fui a Paris. Mas, está me parecendo um observador perspicaz.
- O belo atrai, sempre.
A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul em que moldava o corpo bem feito, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra, depositava as mãos. E elogiava:
- Tem a pele tenra como veludo.
- Meu Deus!...
- Ah, o seu perfume!...
- Magriffe.
- Os franceses são os melhores.
- Também adoro. Posso revelar um segredo?
- Claro.
- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.
- Meu Deus, a idade que acha que tenho?
- Sim.
- Quando as pessoas me perguntam a idade sabe o que digo?
- Nem imagino.
- Eu digo: depende do dia.
- Ah, é? Por exemplo, hoje.
- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove, onze meses e vinte e um dias.
A moça ri descontraída. Depois filosofa:
- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.
- Fabuloso. Quem disse isso?
- Coco Chanel.
        - Não sabia que a estilista também filosofava.
- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas tem talento de sobra na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha. – afirma a mulher.
- Protesto. Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.
Risos.
Grandes focos azulados de luz, a todo minuto, riscavam as paredes e o teto do salão. Entusiasmado, Sófocles faz um sinal ao garçon que chega deslizando entre as cadeiras.
- Outra, por favor.
Luciana eleva os olhos. E um sorriso se precipita neles.
- Tive uma idéia: vamos dançar?
- Dançar?
- É, dançar.
- Daqui há pouco.
- Agora.
- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho; o álcool lubrifica as juntas de minhas pernas.
- Pena.
- Só mais um tempinho.
- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?
- Já?
- Foi um prazer.
- Assim que tocar um bolero, tiro você p’ra dançar. Posso?
- Bolero?
- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...
- Espertinho!
- Meu coração deseja vê-la novamente.
- Combinado.
Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana se levanta, despedindo:
- Tiauzinho.
- Espere.
- O que foi?
Sófocles, cada vez mais pensando no brilho dos lábios molhados da fêmea que pediam mergulho, toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para a sua boca. Com a respiração anarquizada, ela abaixa a cabeça e deixa a mesa remexendo os quadris, rindo do gesto audacioso.
 A festa continuava acalorada. Antes do baile acabar o homem decide ir embora. Deixa morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Entregue a esses devaneios, chama o garçom e paga a conta. Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pela música dos anos sessenta que ainda tocava: ... Óóóóhhh... Óóóhhh Diana, por favor...
- Valeu!... - suspira, enquanto pegava no bolso das calças a chave do carro, levando no olhar os olhos dela, acesos num brilho ponderado de brando corte.
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FBN© 1996- Aconteceu Naquele Baile/Welington Almeida Pinto/Categoria: conto.