Welington Almeida Pinto
A certa altura de um baile no salão de festas do ‘Minas’, quando a pista de
dança chamejava e desenrolava como uma apoteose de magia, eu e meu companheiro de mesa, resolvemos convidar para
dançar duas jovens senhoras acomodadas numa das mesas lá no fundo do salão para
dançar. Foi mal. Nem bem iniciamos a corte, fomos recusados por elas num coro
único:
- Não dançamos.
Meu amigo, surpreso com a recusa, logo tomou outra direção sem dizer mais
nada. De pé, ao lado delas, pensei que deveria conversar um pouco mais com as
damas que estavam em um baile, desinteressadamente, pela alegria da dança.
Em tom cortês, perguntei:
- Não gostam de dançar?
A que estava do meu lado, de cabelos curtos, respondeu:
- Eu até gosto. Hoje não estou a fim.
- Pena.
- Viemos aqui só para conversar e curtir a movimentação da festa.
- Pelo jeito admiram ver pessoas dançando.
- Isso mesmo - responde uma abrindo o sorriso. - O salão de festa desse
clube me passa uma energia muito legal. Aqui brinquei muitos carnavais..., aqui
comecei a tomar hi-fi e cuba libre...
Háháhá..., aqui ia fumar escondido no banheiro e, por aí, vai alguns momento de
minha juventude.
- Recordo do meu baile de 15 anos - entusiasma a de cabelos curtos - dos
Bailes de Formatura, das Missas Dançantes aos domingos e tantos outros. Isso
aqui sempre foi bem divertido...
Bons tempos!... Sabia todas as músicas de cor, mesmo as do novíssimo disco
dos Beatles ou da Jovem Guarda – revela a outra.
Risos.
- Pelo que eu vejo, guardam muitas histórias vividas nesse salão, sim?
- E como!...
- Posso sentar um pouquinho?- perguntei rindo.
- Esteja à vontade.
Puxo a cadeira vazia do lado e me acomodo entre elas, dizendo:
- Sabem de uma coisa: vocês acabam de despertar em minha cabeça um fato parecido
com esse momento que estamos vivendo, ocorrido há mais de um século.
- Não entendi - fecha o sorriso uma delas.
- Explico. Aconteceu com o poeta Trasíbulo Ferraz. Conhecem o baiano
Trasíbulo?
Trasíbulo?
A de cabelos curtos pensa um pouquinho:
- Não. Nunca ouvi falar.
- Nem eu - adianta a outra.
- Certo dia o jovem Trasíbulo chamou uma moça, elegante e bonita como
vocês, para dançar e foi rejeitado.
- Devia estar com os pés doendo - ironiza a moça de cabelos longos.
- Acho que não. O motivo era outro - apressei.
- Qual?
- Naquele tempo era comum encerrar um baile com alguém declamando um poema,
acompanhado pelo som de um piano.
- Que romântico!... Conta.
- No baile de formatura de um amigo, realizado num palacete do
largo de São Pedro, em Salvador, o poeta e jornalista Trasíbulo, sem condições de comprar um traje de gala para a festa, compareceu com sua velha
casaca de veludo-pinhão, sobre um colete surrado. Apesar de recebido pelos colegas com alegria, foi rejeitado para uma contradança por uma donzela
ricamente vestida, que alegou ao mancebo indisposição para bailar, mas logo
aceitou o convite de outro, vestido a rigor.
largo de São Pedro, em Salvador, o poeta e jornalista Trasíbulo, sem condições de comprar um traje de gala para a festa, compareceu com sua velha
casaca de veludo-pinhão, sobre um colete surrado. Apesar de recebido pelos colegas com alegria, foi rejeitado para uma contradança por uma donzela
ricamente vestida, que alegou ao mancebo indisposição para bailar, mas logo
aceitou o convite de outro, vestido a rigor.
Aborrecido com a ‘taboca’, nome dado à recusa, resolveu Trasíbulo aceitar o
pedido para declamar uma poesia no final da festa. Chegada a hora, o poeta
surpreendeu- se ao ver que a jovem que ia acompanhá-lo ao piano era a mesma que
lhe negara a contradança. Não se abateu. Com a pose de um declamador
experimentado, o polegar enfiado na cava do colete e a mão direita apertando o
cabo da bengala, começou explicando que não ia declamar poesias conhecidas, mas
improvisar uma ode dedicada à ocasião, a que deu o título de ‘A Orgulhosa’.
Ao fim da apresentação, tocada por uma forte emoção, a donzela não resistiu
e tombou desfalecida sobre o teclado do instrumento musical, sendo socorrida pelo
próprio poeta, enquanto era aplaudido por uma plateia entusiasmada.
- Nossa, que legal!... Enredo digno de um romance - adianta a mulher de
cabelos longos.
cabelos longos.
- E qual foi o poema? - pergunta a de cabelos curtos. - Pode dizer um
pedacinho?
-A música está muito alta para recitar um verso. Escrevo uma estrofe nesse
guardanapo.
Peguei o pedaço de papel e versei um trecho da poesia:
‘Deixa-te disso, criança,
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha’.
Deixa de orgulho, sossega,
Olha que o mundo é um oceano
Por onde o acaso navega.
Hoje, ostentas nas salas
As tuas pomposas galas,
Os teus brasões de rainha;
Amanhã, talvez, quem sabe?
Esse teu orgulho se acabe,
Seja-te a sorte mesquinha’.
Calado, dobrei a folha, anotei no verso o nome do site, na internet, onde
poderiam ler o poema inteiro e entreguei à jovem senhora de cabelos curtos. Ela
sorriu agradecida. Antes de sair para minha mesa, estendeu-me o rosto e
trocamos beijos nas faces. Em seguida, despedi da outra com um suave aperto de
mãos e outro beijo, silenciosamente.
Satisfeito, voltei para a minha mesa feliz com a resposta tão rápida de
minha memória. Viva!...
* Para ver o poema completo, acesse: http://versoslivres.blogspot.com.br/2010/07/intimidade-dos-versos.html
minha memória. Viva!...
* Para ver o poema completo, acesse: http://versoslivres.blogspot.com.br/2010/07/intimidade-dos-versos.html
** Apesar
de muita gente dar autoria a esses versos a Castro Alves
(1847-1871), são do poeta e jornalista baiano Trasíbulo Ferraz Moreira,
nascido em Lenções, na Chapada Diamantina, em 28 de janeiro do 1870. Ele
frequentou as faculdades de Direito do Recife e da Bahia, até o quarto ano.
Antes de concluir o curso, morreu por moléstia pulmonar. Foi redator-chefe
da "Gazeta de Notícias" de Salvador, onde também publicou poesia, contos e
crônicas. Autor do livro de contos "Poliformes" , publicado em 1896.
(1847-1871), são do poeta e jornalista baiano Trasíbulo Ferraz Moreira,
nascido em Lenções, na Chapada Diamantina, em 28 de janeiro do 1870. Ele
frequentou as faculdades de Direito do Recife e da Bahia, até o quarto ano.
Antes de concluir o curso, morreu por moléstia pulmonar. Foi redator-chefe
da "Gazeta de Notícias" de Salvador, onde também publicou poesia, contos e
crônicas. Autor do livro de contos "Poliformes" , publicado em 1896.
*** FBN© 2007 * NUM BAILE -
Categoria: crônica. Autor: Welington Almeida Pinto - novembro/2007 – Link: http://cronicasbh.blogspot.com.br/2012/05/editar_3939.html
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